Ayur significa vida e Veda, conhecimento. A medicina tradicional indiana foi organizada há aproximadamente 3 mil anos; suas práticas, porém, são muito mais antigas. Trata-se do 1º sistema médico organizado. Seu 1º texto foi o Agnivesha, onde se encontram palavras posteriormente usadas no juramento de Hipócrates, o que mostra que a medicina grega baseou-se no Ayurveda. O texto passou a chamar-se Charaka Samhita[1], pois Charaka foi quem o reorganizou. Essa ciência da vida é muito diferente do que se vê na prática da maioria dos médicos alopatas, que se preocupam com doença e não com saúde. O bom médico, diante do paciente, deixa de ser cientista e torna-se filósofo e até artista! O Ayurveda considera as doenças incidentais e não inerentes à vida. Assim, seu objetivo é proporcionar vida autorrealizada e feliz. Considera ainda que existem doenças naturais: fome, sede, sono, envelhecimento e morte.

A Índia foi uma potência planetária séculos antes de Cristo e outros tantos depois. Era muito visitada por diferentes comerciantes e possuía centros de saúde de medicina Ayurveda, atendimento gratuito à população etc. Por isso muitos aspectos da Medicina Tradicional Chinesa – MTC são semelhantes ao Ayurveda: porque vêm dele que, por sua vez, também deve ter sofrido influência da MTC.

Para a filosofia indiana um dia encerra um ciclo e o ser humano representa o universo: é como se renascêssemos a cada dia. No hinduísmo a origem do pecado original é a preguiça. Para os indianos, se há vida, há alma e assim são reconhecidas também as plantas, além dos animais, evidentemente. As plantas têm sensibilidade e sofrem ao serem arrancadas. Nós nos alimentamos de seres vivos, isto é: nos apropriamos de outra forma de vida.

A vida no universo não é manifestação fortuita, mas resultante de quatro aspectos: alma, inteligência, sensibilidade e corpo – isto é, a vida pode se manifestar de diferentes formas. Esses quatro aspectos têm necessidade de nutrição, pois a vida é uma grande rede de mútua nutrição.

 O ser humano é bio psico social espiritual e absorve átomos pela nutrição, tema central do Ayurveda. O propósito da vida deve ser lembrado quando nos nutrimos. Nosso papel fundamental é transformar a energia universal em vida e transferi-la à consciência. A psique é material e formada por substâncias. Segundo os Upanishads[2] é constituída pela essência do alimento. Ex.: carne, principalmente a vermelha, gera Rajas (atividade e excitação) e a mente permanece muito ativa; seu consumo contínuo impede a evolução. Os vegetais promovem Sattwa (equilíbrio dinâmico). Há também alimentos que produzem Tamas (inércia).

Todos os alimentos tem significado transcendental: a luz vem do Universo e é absorvida pelo reino vegetal, que absorve prana, o sopro ou energia vital universal, que permeia o cosmo e é absorvida pelos seres vivos através do ar que respiram; o prana é carreado pela luz. Os alimentos mais completos são os que contem mais prana – precisamos de prana e de moléculas. Os cereais retém prana por mais tempo. O arroz, por exemplo, modifica-se após seis meses da colheita e fica mais leve. O arroz basmati fica bom com dois anos de envelhecimento porque, quando jovem, forma muco. Os integrais são mais nutritivos, tem mais fibras e são ricos em propriedades medicinais. A casca é sattvica, o meio é rajásico e o núcleo é tamásico.

 Os alimentos devem ser fáceis de digerir. A digestão envolve grande gasto de energia e esse gasto não pode ser superior à energia contida no alimento. O trato digestivo é o local de enraizamento da consciência do corpo.

 O Ayurveda sugere o vegetarianismo, mas não o impõe. A sociedade humana não alcançará a paz enquanto seu alimento for obtido com dor e sofrimento. A melhor dieta é a lactovegetariana com produtos frescos, integrais, orgânicos e cozidos no máximo até seis horas antes de serem consumidos. Além disso, deve haver combinação alimentar que favoreça a digestão e não comer mais de cinco pratos diferentes a cada refeição.

 Leite só deve ser tomado se for de vaca feliz: aquela que vive naturalmente, pastando e sem hormônios e que amamenta seus bezerros. A vaca é considerada sagrada na Índia porque nos dá cinco tesouros: urina, esterco, leite, ghee (manteiga clarificada) e iogurte. Há remédios que utilizam os cinco. É melhor tomar leite à noite (até 200 ml) aquecido com especiarias: canela, cardamomo, cravo, cúrcuma, gengibre etc. É um alimento fundamental para aumentar a inteligência espiritual. O leite de cabra é menos gorduroso e por isso produz menos muco; já o leite de búfala é mais gorduroso. Qualquer leite é melhor digerido pelas crianças. Algumas etnias têm maior dificuldade em digerir leite, como os chineses e por isso a MTC não aconselha seu consumo em geral. Iogurte deve ser sempre bem batido e com especiarias, de acordo com as necessidades individuais. Queijos devem ser evitados devido à alta fermentação.

Ovos são desprezados pelas galinhas e por isso não são bons em termos energéticos: correspondem à sua menstruação. Tem muita impureza, toxinas etc., como a carne. Ambos podem, eventualmente, ser consumidos como remédio, no caso de necessidade de reposição de tecido muscular. Antigamente na Índia os trabalhadores braçais eram autorizados a comer carne de caça. Leite de soja não é leite: é suco de feijão (soja).

 O corpo é constituído de átomos e estes, de elementos/forças: espaço/éter, ar, fogo, água e terra. O éter se refere à não resistência ao movimento, manifestado pelo ar; o fogo é energia, a água coesão/atração da matéria e a terra, estabilidade. Cada corpo é constituído por quantidade e estruturação atômicas diferentes. Por sua vez os átomos se diferenciam porque são constituídos por diferentes quantidades e estruturação de elementos. A saúde depende da manutenção da proporção adequada dos cinco elementos e isso depende da inteligência porque cada corpo é uma usina de reações físicas fantásticas e incontroláveis; depende também do equilíbrio entre quente e frio.

 Segundo o Ayurveda a dieta ideal é constituída de arroz basmati, água, mel, leite, trigo, gengibre, amalaki (fruta indiana), mugda (semente de moyashi), cúrcuma, ghee e sal de rocha. Esses alimentos não perturbam o equilíbrio dos doshas.

 Doshas[3] são substâncias que regulam as funções do corpo e mantém o equilíbrio dos cinco elementos. São três: Vata – representado pelos elementos éter e ar; Pitta, pelo fogo e Kapha, pela água e terra. Quando produzimos algum excesso há desequilíbrio e nem sempre a autorregulação resolve. O leite de cabra, por exemplo, é bom para Kapha, porque produz menos muco. Já Pitta, que tem tendência à acidez, não se dá bem com iogurte, por exemplo. Vata deve evitar alimentos crus porque são secos e por aí vai.



[1] Coleção, coletânia.

[2] São parte das escrituras hindus e discutem principalmente meditação e filosofia. Surgiram como comentários sobre os Vedas, sua finalidade e essência, sendo portanto conhecidos como Vedanta (fim dos Vedas).

[3] A palavra significa “o que está sempre instável.”