M. Celina Rodrigues – embaixadora – diretora titular adjunta do Departamento de Infraestrutura da FIESP – há três anos a FIESP e a União de Nações Sul-Americanas/UNASUL (organização intergovernamental composta pelos 12 estados da América do Sul) compilaram um livro com projetos de financiamento e integração da infraestrutura. Projetos internacionais não rendem votos e tem dificuldades. Nossa preocupação é a integração social que, como qualquer outra integração, depende da infraestrutura. São 31 projetos estruturantes e 88 individuais: muitos, para priorizar. Chegamos a sete projetos de infraestrutura regional prioritária.

 Ernesto Sampler Pizano – secretário geral da UNASUL – a diferença entre a Europa e a América do Sul é que a 1ª é um processo de integração buscando ser região e a 2ª, o contrário. Para nós é mais fácil porque temos identidade, falamos portunhol, não temos conflitos étnicos, religiosos etc. Isso facilita os projetos conjuntos. Temos 17 milhões de km2, 420 milhões de pessoas, situação econômica favorável. Reduzimos o nº de pobres (menos 150 milhões). Temos uma nova classe média, preservamos a democracia, nos libertamos das ditaduras. Nos últimos 30 anos tivemos 124 eleições nos 12 países. Nossa economia cresceu, nos últimos 10 anos, acima da média mundial. Somos uma região rica como poucas no mundo: a maior reserva de biodiversidade. Temos 20% das resevas de petróleo e vários outros minerais. Vivemos do que tiramos da terra: somos extrativistas. E assim somos vulneráveis por depender dos ciclos. Não damos o devido valor ao que temos: não processamos. Nosso maior pecado foi abandonar o desenvolvimento industrial: nós nos desindustrializamos. Abrimos a economia para fora mas continuamos fechados por dentro. Algumas fronteiras se fecham devido ao crime, principalmente tráfico de drogas. Temos 30% da possibilidade do desenvolvimento mundial. Só há desenvolvimento se houver estabilidade macroeconômica. Precisamos buscar um modelo regional de desenvolvimento. Se quisermos inserção internacional precisamos melhorar as condições de competitividade: capacidade de inovação, geração de conhecimento. Na América do Sul só 2% do PIB vão para ciência e tecnologia. Na Europa e EUA: mais de 5%. Também é preciso melhorar a qualidade da educação. Há seis milhões de jovens na América do Sul. Com o fim das barreiras artificiais o conceito de produção nacional foi substituído pelo de produção internacional. O comércio agora funciona com cadeias de valor. 80% do comércio mundial está nas cadeias de valor. Quem mais gera valor são as empresas de logística. Quanto somos capazes de gerar valor na região? A grande opção está em fazer parte vertical ou horizontalmente. Como participar?

O Corredor Ferroviário Bioceânico Central é um projeto ferroviário, que se situará nos países Brasil, Bolívia e Peru. O projeto unirá o porto de Santos (Oceano Atlântico) ao porto de Ilo, no Peru. Também a Hidrovia Paraguai-Paraná, que envolve os cinco países do Rio da Prata: Bolívia, Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Está na hora de identificarmos a viabilidade prática dos projetos. Em todos eles sempre está presente a iniciativa privada. Os empresários precisam aprender a pensar macroeconomicamente e os governos, micro. Devemos buscar países com nível semelhante de desenvolvimento e trabalhar juntos. O nível de comércio interno á América do Sul é muito baixo: 18%. Desses, 70% são manufaturas. Investidores latino-americanos aumentaram 3X mais que o resto do mundo nos últimos anos. Qualquer negócio só é bom se todos ganharem. Com integração, todos ganharemos!

 João Carlos Parkinson de Castro – coordenador geral de assuntos econômicos da América do Sul do Ministério de Relações Exteriores – o Brasil se beneficiou com o Mercosul, mas aquele modelo se esgotou: tornou-se mercantilista, numa busca permanente por superávits comerciais. Estamos num momento de transição para o desenvolvimento de novos modelos. A conjuntura internacional é menos benigna e os concorrentes são ferozes. Governo e empresariado precisam trabalhar em parceria. A formação de cadeias de valor impõe grandes desafios, como a capacitação técnica, mecanismos de financiamento com as condições comerciais. Cadeias de valor tornam o comércio menos vulnerável aos ciclos da economia mundial. A economia mundial tem excedente de poupança que não se canaliza para a infraestrutura. BNDES só financia projetos nacionais. A América do Sul está em transição: 89% dos projetos de transportes são financiados por recursos públicos. O Brasil precisa assumir riscos e responsabilidades de liderança. Cresceu o interesse pelo modal ferroviário e isso é ótimo. Também há uma revisitação ao modal hidroviário. O Brasil pode aderir a bancos internacionais de desenvolvimento. Aqui há crescente participação dos governos estaduais. O MS é um estado dinâmico no desenvolvimento de soluções logísticas. Para eles, hidrovia é solução. Também buscamos promover maior integração aérea, principalmente no SE/SP. Há 579 projetos na carteira do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento/COSIPLAN (da UNASUL), só 18% concluídos. A escolha de poucos projetos prioritários é correta e uma oportunidade de interlocução com chefes de governo. Há crescente interesse do Chile (rodovias) e do Peru Hidrovias) por corredores logísticos. Falta atenção ao sistema portuário: muita burocracia.

O projeto que visa a conexão ferroviária bioceânica entre Brasil e Peru terá participação chinesa. A ferrovia será incorporada ao projeto da Ferrovia Transcontinental, planejada para ter aproximadamente 4,4 mil km de extensão, ligando o Porto do Açu, no litoral do Rio de Janeiro, ao município de Boqueirão da Esperança, no Acre. Dessa forma, a Transcontinental ligará os oceanos Atlântico, no Brasil, e Pacífico, no Peru. A Transcontinental visa proporcionar alternativas no direcionamento de cargas para os portos do N e NE, principalmente aquelas produzidas em GO, MT e RO, reduzindo o percurso e o custo do transporte marítimo de grãos e minérios exportados para os portos do Oceano Atlântico, Europa, Oriente Médio e Ásia. A ferrovia também pretende aumentar a produção agroindustrial da região e estimular a exploração de reservas minerais ainda pouco exploradas.

 Bernardo Figueiredo – consultor da FIESP – somos eficientes em diagnosticar problemas, mas não em solucionar. A grande maioria das pessoas não sabe que é possível ir de São Paulo a Buenos Aires de trem (passando por Corumbá). A ferrovia precisa ser reabilitada e seu melhor trecho está na Bolívia. Hoje o trajeto leva 15 dias (20 km/hora), mas pode cair à metade. As ferrovias europeias também são antigas e funcionam bem porque foram modernizadas, acompanhando o desenvolvimento tecnológico. Há investimentos ferroviários em andamento no Brasil. Argentina, Paraguai e Bolívia não tem logística eficiente.