Hervé e Shibendu: duas pessoas muito especiais. MUITO!!

Hervé foi (é?) um grande e queridíssimo amigo, com quem convivi intensamente por 16 anos, de 1996 (conheci em 1994) a 2012, quando foi embora do planeta, às vésperas de completar 85 anos. Desde muito o considerava como um pai, tal a atenção, carinho e disponibilidade que sempre teve comigo – e com tant@s outr@s.

Nascido e criado na França, veio de lá em 1980. Era astrólogo (o melhor que já apareceu por aqui, segundo muit@s iniciad@s em astrologia), tarólogo e, principalmente, uma mente brilhante, sempre aberto a aprender e compartilhar mais e mais, um espiritualista sem vinculação a nenhuma religião, um buscador incansável. Hervé era um Mestre. Não um professor – um Mestre. E tinha Sabedoria – bem além do simples conhecimento ou de meras informações.

Shibendu, acabei de conhecer. É bisneto de Lahiri Mahasaya, guru (mestre iluminado) de Sri Yukteswar, por sua vez guru de Yogananda, o autor de Autobiografia de um Yogue e vários outros livros.

Nascido na Índia, sempre viveu lá e dedica-se a iniciar pessoas em Kriya Yoga[1] desde a morte de seu pai, a exemplo do que ele fazia, bem como seu avô e bisavô. Ele é um sacerdote brâmane e também um engenheiro que, desde que se aposentou, viaja o mundo nessa atividade voluntária. Já esteve em vários países, inclusive na Rússia e outros países socialistas. Ele tanto é uma pessoa bem informada do que acontece no mundo, como segue fielmente os ensinamentos recebidos, que se baseiam nas Sagradas Escrituras Hindus, como o Bhagvad Gita, Vedanta etc.

Recebi dele a iniciação em Kriya Yoga no fim de semana 9/10.03.2013 e passei os quatro dias seguintes num retiro com ele e outras mais de 20 pessoas. Nunca antes havia tido contato tão intenso com tamanha sabedoria e tanta profundidade em tão curto espaço de tempo. Pra mim foi quase uma overdose! Por mais que me empenhe, tenho certeza que vou demorar um tempão pra incorporar/vivenciar tudo o que nos foi apresentado – na verdade, presenteado por este grande mestre.

Estou escrevendo tudo isso porque Guruji (assim chamamos Shibendu) me lembrou demais meu querido Hervé e isso me encantou e emocionou ainda mais.

Ambos rechaçam seguidores. Hervé não gostava nem da palavra guru[2]. Além disso, mesmo quando falava longamente, era comum concluir dizendo: “não acredite no que eu digo.” Guruji diz: “não sigam ninguém – nem a mim!”

Nenhum dos dois tem papas na língua, falam o que vier à telha, até alguns “palavrões”. Hervé falava menos, pois era um perfeito cavalheiro. Já Guruji diz que em sua cidade, Varanasi, as coisas são ditas com os nomes que elas tem, para que não fiquem dúvidas sobre as intenções.

Um e outro tem rompantes de raiva e esbravejamento e, de repente, solta uma deliciosa gargalhada!

Os dois são afetuosos… muito!

Ambos são alegres, bem humorados, carismáticos, encantadores, graciosos, simpáticos.

Um e outro se revolta com a tirania e a injustiça social. São rebeldes. Lembram “l’enfant terrible”.

Nenhum dos dois faz a mínima cerimônia em xingar, doa a quem doer. Hervé costumava dizer: “Sinto muito!” (E quando começava assim, já se sabia que vinha chumbo grosso). Guruji não “sente” nada, fala à vontade e depois diz: “desculpe se há aqui algum “pastor” (é só um exemplo).

Ambos são desapegados do que é material. Hervé ficou muitos anos sem aumentar o valor de suas consultas de Astrologia e Tarô. Mais tarde, quando seu grupo de meditação diminuiu, passou anos sem cobrar nada de quem o procurava, mesmo estando em situação financeira delicada. Guruji segue o esquema dos gurus indianos, em que os discípulos contribuem, mas não há um valor estipulado previamente. Tudo depende da generosidade das pessoas. Nem é preciso dizer que nenhum dos dois dá a mínima importância para roupas e outros quetais.

Os dois, por vezes, arriscam falar até de assuntos que não dominam e cometem algumas gafes…

Ambos às vezes parecem contraditórios. Hervé dizia que tudo é importante e tanto faz. Guruji diz que devemos evitar a armadilha do OU, que divide a consciência.

Um e outro por vezes parece estar fora do ar, conectando-se a outra dimensão.

Tanto um quanto o outro se espanta tão inocentemente como uma criança, diante do que é muito profundo.

Os dois são prolixos: não economizam palavras para abordar temas importantes desde diferentes ângulos.

Ambos se enfastiam com a vulgaridade.

Os dois preferem cuidar da saúde com medicina natural.

Ambos gostam de abraçar e sabem a importância do toque.

Um e outro tem a belíssima capacidade de despertar e incentivar o que há de melhor em quem deles se aproxima.

Enfim, quando Hervé partiu, deixou em mim um profundo vazio interno e sequer imaginava que poderia preenchê-lo. Essa recente proximidade com Guruji me fez perceber que isso é possível; não objetivamente, pois não posso, como fazia com o Hervé, vê-lo, conversar e trocar mensagens na hora que bem entender – mas subjetivamente, no sentimento. Assim me sinto imensamente agradecida e privilegiada por ter esses dois queridos em minha vida!


[1] Técnica espiritual que não tem como ser explicada – necessariamente é demonstrada (por um mestre) e deve ser praticada.

[2] Talvez nunca a tenha entendido totalmente, pois no ocidente é usada para qualquer liderança.