Uma visão budista da mente e da natureza 

(Instituto Santa Bárbara para Estudos da Consciência) – PUC/Consolação 

 Fui monge por 14 anos. Com 23 fui ordenado noviço, em 1975. Dalai Lama me encorajou a voltar ao ocidente. Vivi na Suiça por quatro anos, mas encontrei poucos monges. Queria formar uma comunidade, mas não senti interesse de outros monges. Voltei ao Dalai Lama que me liberou dos votos (demorei três anos para aceitar) e me disse que eu poderia retomá-los quando desejasse. Nos últimos 15 trabalho com psicólogos e neurocientistas cognitivos. Cientificamente nos firmamos no empirismo, objetividade, observação, razão etc. A ciência não me dizia nada sobre valores humanos como compaixão, empatia etc. A tradição cristã corporifica esses valores. É preciso diálogo para integrar os valores científicos, humanos e religiosos. O budismo não é só religião, ciência, filosofia ou forma de vida. Ele não cabe na nossa classificação ocidental. Todos precisamos da fé, que não pode ser só religiosa. A ciência começou com a busca de uma visão “olho de Deus” sobre a realidade, procurando conhecer a mente do Criador através da criação. Religião é um sistema de crenças e práticas focadas em características fundamentais e universais da existência humana enquanto relacionam-se com a busca por liberação e existência autêntica. Os antigos cientistas queriam a objetividade divina, sem as limitações dos sentidos humanos. Queriam conhecer a mente de Deus. Para isso, observavam a criação. Qual a língua de Deus? Para Galileu, a matemática. Os cientistas crêem que o mundo objetivo pode ser conhecido independente da experiência humana. O público crê na comunidade científica. Sem essa fé a ciência não existiria. Não falo de fé irracional, mas da que abre os horizontes do conhecimento além do escopo atual da razão e da experiência. É igualmente necessária na ciência, na religião e no cotidiano. Segundo Einstein, “a ciência sem a religião é aleijada e a religião sem a ciência é cega.” Evidências como a reencarnação são difíceis de serem reconhecidas pelos neurocientistas. Dogmas não estão só na religião, mas também na ciência, que precisa ser cética em relação às suas afirmações. A fé e a confiança são necessárias em todas as parcerias: casais, pais e filhos, sociedades, amizades etc. O domínio da ciência inclui o âmbito empírico e busca responder as questões sobre a composição do Universo e como funciona. O domínio da religião está no âmbito das finalidades e valores humanos. A separação ocorreu como se fossem duas crianças brigando, cujos pais mandaram cada um para seu quarto. A ciência sempre foi guiada por valores. Ninguém entra numa pesquisa científica se não se basear neles. Ignorar isso é ignorar a razão de ser da ciência. Os valores desconectados das crenças são vazios. O maior crescimento da ciência na história foi no século XX, também o pior para a história humana, com Hitler, Mussolini, Stalin, Mao etc. Houve carnificinas de milhões, degradação do meio ambiente, extinção de espécies, exploração de recursos não renováveis. O poder da tecnologia foi usado pelo homem contra si e seu meio. Ela fortaleceu nossas faculdades destrutivas. Bons valores devem ser reintroduzidos na ciências, baseados na verdade. Galileu no século XII percebeu eu o homem pode atingir uma perspectiva “olho de Deus” sobre a realidade através da pesquisa científica e matemática.

 Hierarquia das ciências: as leis da matemática por si só não definem, preferem ou explicam a emergência de um universo físico nem a matéria detectada por um raciocínio matemático. As leis da física por si só não definem, preferem ou explicam a emergência da vida no Universo nem a vida pelos instrumentos físicos. As leis da biologia por si só não definem, preferem ou explicam o surgimento da consciência nos organismos vivos nem a consciência é detectada pelos instrumentos da biologia.

Não há vida nas teorias. Método científico: princípios e procedimentos para a sistemática aquisição de conhecimento envolvendo o reconhecimento e a formulação de um problema. Galileu aprimorou o telescópio e o utilizou para realizar observações precisas de fenômenos celestes. Os meios atuais de observação dos fenômenos mentais permanecem ao nível da psicologia popular. Ainda não houve revolução na psicologia nem nas neurociências. Houve algum desenvolvimento, mas há as mesmas afirmações há mais de 100 anos. Os psicólogos têm meios sofisticados de observar o comportamento. Mas só o comportamento não mostra as motivações, as emoções. Se só se estuda o cérebro, vêem-se neurônios, partes do cérebro, não o fenômeno mental. Há 300 anos de desenvolvimento da física, química e biologia, antes do começo de uma ciência da mente. A premissa materialista afirma que da mente emergem organismos vivos, deles células, delas moléculas orgânicas, destas as não orgânicas até chegar nos átomos. A realidade está onde está a atenção. Os cientistas focaram-se na realidade física: “não é real, está só na sua mente.”

Guatama (Buda) há 25 séculos atrás aprimorou a atenção voluntária contínua com estabilidade e claridade aperfeiçoada e a utilizou de forma sem precedentes para explorar estados da consciência e seus objetos. Dizia que “a mente que se baseia no equilíbrio conhece a realidade como ela é.“ Em sua época havia grande interesse sobre a natureza da mente. Percebeu-se que a mente humana não se foca por mais de cinco segundos. Samadhi seria o telescópio da mente: forma de observar os fenômenos mentais profundamente para captá-los. Buda desenvolveu esse princípio que já existia e usou isso de forma sem precedentes. Contemplação seriam os meios pelos quais se devota toda a nossa energia para revelar, esclarecer e tornar manifesta a realidade vista. Noêtos é a faculdade cognitiva que apreende diretamente os fenômenos não sensoriais e revela seus sentidos inteligíveis. Para os budistas é a percepção mental, que os psicólogos não consideram. Há muito mais que cinco sentidos: sonho, razão, memória, imaginação, desejo etc. Quando o ser gerado se torna consciente, ele é um passageiro no corpo da mãe. Cientificamente não se sabe quando isso ocorre. É preciso reintegrar as ciências naturais e humanas e o retorno do empirismo na religião, filosofia e ciência.

Não há estudos científicos e experimentais da mente desde 1870. As questões da natureza da mente foram excluídas da psicologia. No início do século XX as questões da consciência voltaram a preocupar. Há otimismo ainda para estudar a consciência pela mente e pelo cérebro. Os chineses, indianos e tibetanos há séculos se interessam pela natureza da mente. Mas muitos no ocidente não consideram isso ciência porque não há experimentos de controle e análise quantitativa. Dalai Lama é produto do laboratório budista. Budismo não é ciência como se entende aqui. Mas aqui também não há ciência da mente. Talvez unindo ambas surja a ciência da liberação. A ciência é fenômeno individual/social e a religião o é social/individual. Por vezes o indivíduo catalisa mudanças com impacto profundo na sociedade. Segundo Buda, o que mais vale para a prática é a existência da comunidade. No ocidente há budistas espalhados para todo o lado, mas poucas comunidades budistas. Isso porque prevalece o individualismo, particularmente nos EUA. Esperamos que a prática se expanda e beneficie todos os seres do planeta.

 Ubiratan D’Ambrosio – professor da PUC – sou matemático e em todas as minhas pesquisas tentando entender diferentes fenômenos, sempre me encontrava com a religião. Todas as religiões do Mediterrâneo estão na base do que hoje conhecemos como matemática. Em todas as minhas reflexões eu voava, mas numa gaiola que me limitava epistemologicamente e culturalmente. Só se entende a gaiola voando fora dela. Quando saímos, percebemos que há muitas outras gaiolas e que a humanidade vive engaiolada em religiões, crenças, ciências, pesquisas etc. Daí as inúmeras contradições do mundo moderno. A mesma tecnologia que trouxe o Wallace aqui, carrega bombas e mata milhares.

 Lama Padma Santen – RS – tenho 25 anos de contato com a física. No budismo encontrei respostas que a ciência não me deu. Ela não faz sentido se não for para produzir coisas melhores. Nós construímos conhecimento e isso deve ser em melhores relações com os outros e o meio ambiente. Também é preciso desenvolver um sentido mais preciso da realidade.