PRÉ-HISTÓRIA – o ser humano já produzia uma forma de música que lhe era essencial, pois sua produção cultural constituída de utensílios para serem utilizados no dia-a-dia não lhe bastava; era na arte que encontrava campo fértil para projetar seus desejos, medos e outras sensações que fugiam à razão. Diferentes fontes arqueológicas em pinturas, gravuras e esculturas, apresentam imagens de músicos, instrumentos e dançarinos em ação, no entanto não é conhecida a forma como esses instrumentos musicais eram produzidos.

As primeiras civilizações musicais se estabeleceram principalmente nas regiões férteis ao longo das margens de rios na Ásia central, como as aldeias no vale do Jordão, na Mesopotâmia, Índia (vale do Indo atualmente no Paquistão), Egito (Nilo) e China (Huang He). A iconografia dessas regiões é rica em representações de instrumentos musicais e de práticas relacionadas à música. Os primeiros textos destes grupos apresentam a música como atividade ligada à magia, à saúde, à metafísica e até à política destas civilizações, tendo papel freqüente em rituais religiosos, festas e guerras. Várias destas civilizações possuem eventos musicais relacionados à criação do mundo e suas mitologias freqüentemente apresentam divindades ligadas à música.

Entre os vestígios remanescentes das grandes civilizações, foram encontrados testemunhos escritos em registros pictóricos e escultóricos de instrumentos musicais e de danças acompanhadas por música. Fazendo estudos nos instrumentos encontrados dessa época notou-se o aperfeiçoamento na construção dos instrumentos, com valorização do timbre. A cultura sumeriana, que floresceu na bacia mesopotâmica vários milênios antes da era cristã, incluía hinos e cantos salmodiados em seus ritos litúrgicos, cuja influência é perceptível nas sociedades babilônica, caldeia e judaica que se assentaram posteriormente nas áreas geográficas circundantes.

MESOPOTÂMIA – as primeiras civilizações do planeta surgiram na região do Oriente Médio, em especial na Mesopotâmia. Denominamos este período de “Antiguidade Oriental” e pouco se sabe sobre sua música.

Dentre os povos da Mesopotâmia, os sumérios foram os que mais se destacaram culturalmente. De origens incertas, este povo estabeleceu uma civilização há cerca de seis mil anos. A rica cultura de Sumer floresceu e influenciou, por mais de três mil anos, todos os povos da Ásia Central, como os assírios, cananeus, egípcios, fenícios, babilônios e hebreus. Na Assíria e na Babilônia, a música tinha importante significação social e expressiva atuação no culto religioso. Nas ruínas das cidades desses povos, foram descobertos harpas de 3 a 20 cordas dos sumérios e cítaras de origem assíria. Não foram encontrados registros de um sistema de notação musical, mas alguns documentos cuneiformes datados dos séculos XVIII a.C. a XV a.C. atestam a existência de uma elaborada teoria musical. Trabalhos de tradução publicados pelo padre Gurney e Marcele Duchesne-Guillemin entre 1963 e 1969 revelam que estas tábuas tratavam de um sistema de afinação para uma lira de nove cordas e, por extensão, permitem estabelecer que os sumérios possuiam, além das escalas pentatônicas mais usuais, uma escala diatônica de sete sons.

Foram encontrados também, vestígios de diversos instrumentos avançados para a época. Uma harpa de cordas percutidas, ancestral do piano, flautas de cana e de prata, liras de cinco a 11 cordas, uma espécie de alaúde de braço longo e uma harpa com coluna de apoio (por volta do século XXV a.C.).

Os assírios deixaram vasta documentação de sua cultura musical na forma de pinturas, esculturas, baixos-relevos e textos literários. Os músicos tinham papel proeminente na sociedade e eram mais reverenciados que os sábios. A música, para este povo, era associada ao poder e os músicos dos povos conquistados sempre eram poupados e levados até as cidades assírias para que sua arte pudesse ser absorvida. Este é o 1º povo que se tem notícia a formar grandes orquestras que podiam chegar a 150 componentes entre cantores e instrumentistas.

O legado da cultura mesopotâmica passou aos persas. Segundo o testemunho de Heródoto, o célebre historiador grego, a música teve importante função social, no culto religioso, em momentos de guerra e mesmo em festividades. Mas chegaram a aboli-la do culto, sem deixarem de apreciar, no entanto, os conjuntos vocais e instrumentais, como é possível constatar nos documentos iconográficos. Percebemos através da pintura que eram vários os instrumentos usados por esses povos, já divididos entre instrumentos de sopro, corda e percussão, entre eles: flautas, tímpanos, gongo e lira.

EGITO – nas escavações arqueológicas, realizadas em templo, pirâmides e tumbas, foram encontrados baixos-relevos, murais, mosaicos, textos e objetos que atestam atividades musicais de caráter religioso, militar e social, bem como a existência de instrumentos de música, muitos séculos antes da era cristã. Entre o 6º e o 4º milênio a.C., após o estabelecimento das 1ªs cidades, a dança era a principal manifestação musical e os instrumentos provavelmente vieram do sul da África e da Suméria.

A cultura egípcia, por volta de 4.000 a.C., alcançou um nível elevado de expressão musical, pois era um território que preservava a agricultura e este costume levava às cerimônias religiosas, onde as pessoas batiam espécies de discos e paus uns contra os outros, utilizavam harpas, percussão, diferentes formas de flautas e também cantavam. Os sacerdotes treinavam os coros para os rituais sagrados nos grandes templos. Era costume militar a utilização de trompetes e tambores nas solenidades oficiais.

Na época do Império Antigo, entre a III e X Dinastias, 2.635 a 2.060 a.C., a música egípcia viveu seu auge. Muitas representações mostram pequenos conjuntos musicais, com cantores, harpas e flautas e inscrições coreográficas descrevem danças realizadas para o faraó. Dos conjuntos musicais também faziam parte algumas pessoas que somente batiam palmas.

No Império Médio (XI a XVII dinastia) conjuntos maiores e até orquestras são representados. Entre os instrumentos há harpas, alaúdes, liras, flautas, trombetas, tambores e crótalos. No Império Novo (XVIII a XX dinastia), estes instrumentos se aperfeiçoam. A música passa a ter papel ritual e militar.

Alguns instrumentos foram encontrados em escavações de pirâmides, templos e túmulos subterrâneos do Vale dos Reis mas, infelizmente, nenhum deles de afinação fixa. A escala egípcia era diatônica, com tons e semitons, conforme se pode deduzir pelas flautas encontradas. A harpa, como instrumento nacional, foi elaborada nas mais luxuosas e elegantes formas. A arte egípcia, através de seus instrumentos musicais e papiros com diversas anotações, atingiu outras civilizações antigas, como a Cretense, a Grega e a Romana.

Muitos afrescos mostram músicos ajoelhados e vestidos como escravos. A posição subalterna não permitia a transmissão dessa arte pouco valorizada através dos textos.

O povo tinha seus cantos tradicionais, religiosos – principalmente através de transes místicos para a cura de doenças dos corpos físico, mental, emocional e espiritual -, profanos, guerreiros e de trabalho. Os instrumentos de corda, harpa e cítara eram artisticamente elaborados. Os egípcios tinham flautas simples e duplas (oboés) e instrumento típicos de percussão, como crótalo e sistros e principalmente os tambores.

Fazia-se música tanto no palácio do faraó como no trabalho do campo ou ainda no culto dos mortos. Eram normalmente as mulheres que tocavam. A música tinha uma origem divina e estava muito ligada ao culto dos deuses, havendo alguns especificamente associados a ela.

A cultura musical do Egito Antigo entrou em decadência junto ao próprio Império. Com as sucessivas invasões, a música do Egito passou a ser influenciada pelos gregos e romanos, perdendo sua independência.

ÁFRICA – nessas tribos e também nas indioamericanas a música reveste-se sobretudo de um cariz mágico, entoada nos seus vários rituais de passagem. A cultura musical africana não árabe é peculiar por complexos padrões rítmicos, embora não apresente desenvolvimento equivalente na melodia e na harmonia.

Na Ásia, onde a influência de filosofias e correntes religiosas como o budismo, o xintoísmo, o islamismo etc. foi determinante em todos os aspectos da cultura; os principais focos de propagação musical foram a civilização indiana do 3º milênio antes da era cristã e a chinesa. Ambas se mantém em ininterrupta continuação, ao contrário de outras, extintas.

ÍNDIA – a mitologia hindu diz que Shiva ensinou a música aos homens há cerca de 6 mil anos. A civilização pré-ariana tornou-se próspera e é provável que uma cultura musical própria tenha se desenvolvido, possivelmente com influências da Mesopotâmia. Embora os Vedas[1] documentem a importância religiosa da música na civilização indiana e forneçam extensa informação mitológica, nenhum documento ou informação precisa sobre como seria essa música foi encontrado. Desse fato decorre que pouco ou nada se sabe sobre os instrumentos, escalas e a teoria musical na Índia Antiga. A escrita musical era registrada por algarismos ou letras do alfabeto sânscrito.

Os Vedas foram compostos na forma de poesia e era cantada com ritmo. Essas melodias com o tempo integraram a vida inteira do ser humano desde o nascimento até a cremação e assim a música colocou o mito perto da criação e da natureza. Convivendo com a natureza as pessoas aprenderam o efeito das notas nas estações do ano e isto ajudou a transformar o trabalho em prazer, pois o canoeiro, o vaqueiro, o pastor, todos tem suas canções que pulsam no ritmo de seus trabalhos. A maioria dos indianos que são hindus aceitam os princípios e disciplina originária dos Vedas; que têm uma afinidade muito forte com música, e por isto foi estabelecida uma relação também muito forte entre religião e música.

Milhares de anos atrás, através de profunda meditação e vivência com a natureza, percebeu-se que certo conjunto de notas deveriam ser invocadas a certas horas, e em certas estações. Esta correspondência é feita entre rágas[2] e os períodos do dia (manhã, tarde e noite), e as estações do ano. Isto impulsiona a criatividade dos músicos na direção correta, pois lhes dá a consciência criativa necessária para todas as improvisações; que são requisições fundamentais para a música indiana. Foi percebido também que a vibração de certas notas ou conjunto de notas e melodias provoca alterações nos chacras[3], catalisando ou diminuindo suas funções. Estas alterações psicofísicas e energéticas modificam o estado de consciência dos músicos e dos ouvintes. Isso mostra que já na Antiguidade os sábios, conhecendo o poder do som, usavam a música para restabelecer o equilíbrio energético.

A música não só afeta os seres vivos, mas altera o ambiente, o local, inclusive o clima. Existem rágas que tanto podem provocar o fogo, aparentemente trazendo-o do nada, como a chuva. E também mudar o comportamento de uma multidão violenta, para calma ou vice-versa. Na Índia, a música clássica também é utilizada para maiores obtenções na produção do leite de vaca, e para maiores colheitas, dando uma safra rica. Assim a música tem o poder de influenciar os três reinos e os cinco elementos.

 

A música é considerada prece ou oração e alimento para alma. É um meio de atingir a consciência suprema, mas nada impede sua utilização para satisfazer os instintos a nível físico e serve para lazer e divertimento. Ao contrário do ocidente, a música popular é apreciada ouvindo, não em bailes e clubes de dança. A dança coletiva é reservada para festas religiosas e acontece nas ruas e praças nos ritmos de música folclórica. Nas apresentações de música clássica a sincronização entre músico e público provoca tal concentração que todos perdem até a noção de tempo.

Conforme a definição tradicional, a música engloba o quadro vocal, instrumental e a expressão corporal, que pode ser traduzida como dança e teatro. A dança clássica e popular (folclórica) tem seu próprio espaço na cultura indiana. Geralmente estas peças estão baseadas na mitologia.

A música indiana está dividida nas seguintes modalidades: Clássica, Semiclássica, Devocional, Folclórica e Popular. A Música Tradicional Clássica Indiana possui um amplo espaço no cotidiano e até hoje segue as tradições filosóficas milenares: dar a cada músico a liberdade de improvisações em cima da disciplina rígida dos rágas.

A indústria cinematográfica indiana, que anualmente produz aproximadamente 800 filmes, também tem grande participação em promover a música. Geralmente todos os filmes têm em média sete canções, baseados na música semiclássica e popular.

CHINA – após o estabelecimento da civilização chinesa no Huang-He, a música começou a ter papel importante. Os músicos tinham um papel social respeitado e os instrumentos musicais tiveram grande desenvolvimento. Vários instrumentos de cordas (liras e cítaras) bem como o sheng (órgão de boca com palhetas livres) já existiam no 3º milénio a.C. Os chineses teriam sido os iniciadores da notação musical com letras e os 1ºs a filiar a escala na relação da quinta 5ª, 3,5 tons (2.637 a.C.).

O sistema de escala chinês (sistema Lyu), baseado em tubos diapasões que fixam as relações de intervalos foi criado no reinado de Huang-Ti (2698 a.C. a 2598 a.C). Este sistema continua em uso até hoje com pouquíssimas alterações. Não se sabe se houve um sistema de notação, pois um decreto imperial em 212 a.C. ordenou a queima de todos os livros. Apesar disso, a música sobreviveu através de ensinamentos tradicionais e já por volta do ano 2.255 a.C. o domínio sobre a expressão musical atingia tal perfeição entre eles, que sua influência se estendia por todo o Oriente, moldando a música do Japão, Birmânia, Tailândia e Java..

Na China, o peculiar era a própria música, devido à sua monumentalidade. Os chineses utilizavam nada menos que 84 escalas (o sistema tradicional da música ocidental dispunha de apenas 24). A variedade da sua instrumentação era imensa.

Os chineses também já estavam passos à frente na percepção do que a música era capaz de suscitar em um grande número de pessoas. Por isto, usavam melodias em eventos civis e religiosos e, com isto, empreendiam uma marca à personalidade dos grandes imperadores. Cada grande imperador tinha sua música própria. Quase todos eles levaram a sério a música folclórica, enviando oficiais para recoletar as canções e inspecionar a vontade popular.

Acreditavam no poder mágico da música, como um espelho fiel da ordem universal. A “cítara” era o instrumento mais utilizado pelos músicos, este era formado por um conjunto de flautas e percussão. Eles eram avançados em relação aos instrumentos musicais – já possuíam inclusive o conceito de orquestra.

Muito numerosos eram os instrumentos dos antigos chineses, sendo os mais característicos o Kim (lira de cordas de seda), o king (instrumento de percussão constante de pedras suspensas por um fio e afinadas) e o txeng (espécie de pequeno órgão portátil, feito de tubos de bambu, dispostos verticalmente sobre uma cabaça esvaziada, na qual se soprava por um chifre).

A música conhecida mais antiga é Youlan ou a Orquídea Solitária, atribuída a Confúcio. O primeiro grande florescimiento adequadamente documentado da música chinesa foi para o guqin durante a Dinastía Tang (antes da Dinastía Han).

Na antiga China a posição dos músicos era muito mais baixa que a dos pintores, mesmo a música sendo vista como central para a harmonia e longevidade do Estado. Um dos clássicos confucionistas, Shi Jing, continha várias canções folclóricas que datavam desde 800 a.C. até 300 a.C.

A etnia Han forma em torno de 92% da população da China. A música étnica Han consiste de música heterofônica, na qual os músicos tocam versões de uma mesma linha melódica. A música folclórica Han se consolidou nas bodas e funerais. Usualmente inclui uma forma de oboé chamado suona e instrumentos de percussão chamados chuigushou. A percussão acompanha a maior parte da música, dança e ópera. A ópera chinesa tem sempre foi enormemente popular, em especial a de Pekín.

Os chineses de hoje conservam muitas de suas antiquíssimas tradições. A música tradicional é tocada por instrumentistas solistas ou em pequenos conjuntos de instrumentos de cordas, flautas, gongos e tambores. As flautas chinesas de bambu e os guqin são os instrumentos chineses mais antigos que se conhecem. Os instrumentos se dividem tradicionalmente em categorias baseadas no material que os compõem: pele, bambu, madeira, seda, terra/argila, metal e pedra. As orquestras chinesas tradicionalmente são conformadas por instrumentos de corda, ventos de madeira e instrumentos de percussão.

JAPÃO – cantavam cânticos à deusa do sol quando ela “amuava” e se escondia na sua gruta. Os japoneses ainda entoam cantos antigos quando há um eclipse solar.

AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA – sua música possui acentuado parentesco com a chinesa e a japonesa em suas formas e escalas, o que se explica pelas migrações de tribos asiáticas e esquimós através do estreito de Bering, em tempos remotos.

HEBREUSgraças à Torá e à extensa coletânea de textos religiosos legada pelos hebreus e judeus, é possível reconstruir com relativa precisão a história da música desse povo. Embora haja referências à música entre os descendentes de Adão, é provável que a música do povo hebreu só tenha conhecido seu desenvolvimento pleno e independente após o reinado de Davi (1.000 a 962 a.C.). Antes disso, o povo hebreu era composto de tribos nômades e provavelmente sua música sofreu influências de todos os povos com que conviveu, como os caldeus, babilônios e egípcios. Somente após a fixação das 12 tribos em Canaã (1250 a.C.) é que a música hebraica pode conhecer um desenvolvimento próprio. Infelizmente não há registros que tratem dos sistemas teóricos, escalas, estilos ou documentos sobre organologia.

O papel social da música, no entanto é bem conhecido e os textos do Antigo Testamento estão repletos de relatos sobre instrumentos e sua utilização religiosa ou em festas. Entre os instrumentos mais utilizados estão vários tipos de sopro (trombetas e trompas, como o shofar, flautas, oboés), percussão (tambores, sistros e crótalos) e cordas (como liras, cítaras e harpas). A música tinha papel importante nas festividades e nas atividades do Templo de Jerusalem.

O ocidente europeu possui uma tradição pré-histórica própria. É bem conhecido o papel preponderante assumido pelos druidas, sacerdotes, bardos e poetas, na organização das sociedades celtas pré-romanas.

GRÉCIA – na Antiguidade, a música parece presente entre todas as civilizações, quase sempre com caráter religioso. Predominava o recital de palavras – instrumentos musicais não eram muitos e nem muito utilizados, pois a prioridade da música era comunicar. Apolo é um adorador da música, é diretor do coro das musas, mas ele só virou deus da música ao receber uma lira do deus Hermes, que foi feita com um casco de tartaruga e com tripas do gado que Hermes havia roubado de Apolo, o que criou bastante discussão entre os dois e Maia (mãe de Hermes), mas ao ouvir Hermes tocar a lira, Apolo ficou tão admirado que a aceitou com muito gosto. Apolo também é considerado deus das artes, beleza, equilíbrio, harmonia e poesia[4]. O termo ‘lírico’ é usado também na poesia. Depois, a lira deu lugar à cítara e ao aulos (um instrumento de sopro, ancestral do oboé), de sonoridade sensual, muito usada nas festas dedicadas ao Deus Dionísio, mais tarde chamado de Baco, pelos romanos. No culto a Apolo a lira era o instrumento característico, enquanto no de Dionísio era o aulo. Foi também na Grécia Antiga que surgiu o órgão. A melodia ainda era bastante simples, pois não conheciam a harmonia (combinação simultânea de sons). Anfião recebeu uma lira de Apolo e Orfeu, filho de Apolo, foi um dos principais poetas e músicos da época heróica, ao lado de Homero e Hesíodo.

A própria palavra música é de origem grega, “musiké”, e significava “a arte das musas”, abrangendo também a poesia e a dança. As três artes apresentavam-se indissoluvelmente ligadas nos tempos antigos, tendo sido apreciadas por ricos e pobres, indistintamente, em todas as civilizações, que inventaram os antepassados de nossos instrumentos musicais. Os gregos gostavam muito de música, tanto que chegaram a preparar belos festivais por ocasião das grandes cerimônias religiosas e introduziram o canto coral nos espetáculos teatrais. Infelizmente, à exceção dos gregos, nenhum dos povos citados costumava transcrever sua música, por isso temos hoje uma ideia muito vaga a respeito de sua forma de composição.

Encontramos a gênese da arte grega na civilização cretense, cujos vestígios se revelaram em ruínas de cidades como Tirinto, Micenas e Cnossos. Ela é a glorificação da natureza e da vida, expressando um anseio constante pela perfeição, ritmos e harmonia, o apreço pelos valores espirituais e o culto da beleza ideal.

Pitágoras (580 a.C.-495 a.C.) acreditava que a música e a matemática eram a chave para os segredos do mundo, que o universo cantava, justificando a importância da música na dança, na tragédia e nos cultos gregos. Ele estabeleceu proporções numéricas para cada intervalo musical. Dentre as posturas mais interessantes, destacam-se:

- a de Pratinas (viveu em torno de 500 a.C.), rígida e conservadora, condenava o instrumentalismo;

- a de Pídaro (518 a.C. a 438 a.C.), mais positiva, expressa uma sincera crença no poder da influência musical no decorrer do processo educativo;

- a de Platão, representante máximo da filosofia musical grega, apoiava-se na afirmação da essência psicológica da música. Segundo esse filósofo, a música poderia exercer poder maléfico ou benéfico, por imitar a harmonia das esferas celestes, da alma e das ações. Daí, a necessidade de se colocar a música sob a administração e a vigilância do Estado, sempre a serviço da edificação espiritual humana, voltada para o bem da polis, almejada como cidade justa; e

- a de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), que destaca o papel da poesia, da música e do teatro na purgação das paixões (catarse). Alarmado com a proliferação da arte musical, ele se manifestou contra o excesso de treino profissional na educação musical da pessoa comum.

Aproximadamente entre 450 e 325 a.C. deu-se uma reação contra o excesso de complexidade técnica, e no início da era cristã a teoria musical grega, e provavelmente também a prática, estava muito simplificada. A maior parte dos exemplos de música grega que chegaram até nós provém de períodos relativamente tardios. Os mais importantes entre eles são: fragmentos de um coro do Orestes de Eurípides (480 a.C.-406 a.C.), de um papiro datado de cerca do ano 200 a.C., sendo a música, possivelmente, do próprio Eurípides; um fragmento da Ifigênia em Áulide de Eurípides; dois hinos délficos a Apolo, praticamente completos, datando o 2º de 128-127 a.C.; um escólio ou canção da bebida, que serve de epitáfio a uma sepultura, também do século I, ou um pouco posterior; e Hino a Mémesis, Hino ao Sol e Hino à Musa Calíope de Mesomedes de Creta, do século II.

A música grega assemelha-se à da igreja primitiva em muitos aspectos fundamentais. Era, em 1º lugar, monofônica, ou seja, uma melodia sem harmonia ou contraponto. Muitas vezes, porém, vários instrumentos embelezavam a melodia em simultâneo com a sua interpretação por um conjunto de cantores, assim criando uma heterofonia. Mas nem a heterofonia nem o inevitável canto em oitavas, quando homens e rapazes cantam em conjunto, constituem uma verdadeira polifonia. A música grega, além disso, era quase inteiramente improvisada. Mais ainda, a sua melodia e o seu ritmo ligavam-se intimamente à melodia e ao ritmo da poesia, e a música dos cultos religiosos, do teatro e dos grandes concursos públicos era interpretada por cantores que acompanhavam a melodia com movimentos de dançar predeterminados.

A música grega se baseava em oito escalas diatônicas descendentes – os modos gregos -, cada um com um significado ético e psicológico. A teoria musical grega se fundamentava na ética e na matemática. Foram os filósofos gregos que criaram a teoria mais elaborada para a linguagem musical na Antiguidade. A representação musical era feita com letras do alfabeto, formando “tetracordes” (quatro sons). Da união de dois tetracordes formaram-se escalas de oito notas, cuja riqueza sonora já permitia traçar linhas melódicas. Estas escalas mais amplas – os modos – tornaram o sistema musical grego conhecido posteriormente como modal. O canto prendia-se a uma melodia simples, a Monodia, pois os músicos da Grécia ignoravam as combinações simultâneas de sons (harmonias). Nem por isso deixavam de caracterizar com seus modos um sentido moral – o Ethos -, tornando os ritmos sensuais, religiosos, guerreiros e assim por diante. Uma vez que os ritos religiosos quase não mudavam, conservando a tradição, com o tempo criaram-se melodias-padrão, muito fáceis e conhecidas de todos, os Nomoi.

O caráter científico da música só começa a ser verdadeiramente estudado pelos antigos músicos gregos, que a submeteram às leis científicas, certamente influenciados pela sua mentalidade racional. Até então, nenhum povo tinha feito tal estudo. Os gregos atribuíam à música uma elevada função moral, como modeladora do caráter humano, ou seja, a boa música incitava às boas acções, enquanto que a música má diminuia a força de vontade ou eliminava-a. O mais curioso é que a doutrina ética da música, que defendia que esta desempenhava um grande papel na educação, manteve-se viva ao longo dos tempos, o que já não aconteceu com a sonoridade clássica, que se perdeu logo na transição cultural para o império romano.

A Grécia aparece muito ligada à poesia e à escrita que, a par com a música, participavam como forma de expressão nos teatros. A civilização grega teve um papel fundamental para a evolução da história da música ocidental, sendo de destacar o seu contributo essencialmente em relação ao ritmo e à notação musical. Sabe-se que em Atenas havia anualmente concursos de canto e que as peças de teatro eram acompanhadas por música. Os gregos tinham noção do culto da música como arte e como ciência, pois a música era tão valorizada, que fazia parte das quatro disciplinas essenciais para a educação dos jovens.

O ritmo era o denominador comum das três artes, fundindo-as numa só. Dessa forma, a Lírica era um gênero poético, mas seu traço principal era a melodia. Como os demais povos antigos, os gregos atribuíam aos deuses sua música, definindo-a como uma criação integral do espírito, um meio de alcançar a perfeição. Neste obscuro mundo pré-histórico a música tinha poderes mágicos.

À medida que a música se tornava independente, multiplicavam-se os virtuosos e a música tornava-se cada vez mais complexa em todos os aspectos.

ROMAno período helenístico, a música grega desviara-se para a busca e o culto da virtuosidade, o que representou uma decadência do espírito nacional que a orientara na época áurea. Eram interessantes os diversos instrumentos de sopro utilizados nos exércitos, com variadas finalidades. A mais curiosa figura conhecida na arte musical romana, antes da era cristã, foi o Imperador Nero, compositor e poeta, que se acompanhava à lira, tendo até instituído a ”claque”, cujos aplausos interesseiros estimulavam sua inspiração e acalentavam sua vaidade. Toda música do império romano foi influenciada pela dos gregos. Em Roma, as lutas dos gladiadores eram acompanhadas por trombetas. A música estava sempre presente nas casas dos mais ricos. Nas ruas davam-se pequenos espetáculos de malabarismo e de acrobacia que eram sempre acompanhados por flautas e pandeiretas. Destaca-se nesta cultura o órgão hidráulico[5]. No Império Romano, na escrita musical utilizavam as 1ªs 15 letras do seu alfabeto.

A cultura dos romanos era muito inferior ao seu poderio, de maneira que a conquista da Grécia lhes veio bem a calhar: a avançada civilização grega oferecia-lhes tudo o que não tinham em ciência, arte e refinamento. Recolhendo os melhores elementos do patrimônio grego, trataram de copiá-los com capricho e depois os apresentaram como produto próprio entre os demais povos que tinham sob domínio. Mas não foram muito além desse trabalho de divulgação. Particularmente no caso da música, Roma quase nada acrescentou àquilo que se havia desenvolvido na Grécia.

O comportamento cultural que os romanos assumiam para com a música era bastante diferente dos gregos, rompendo por completo a ligação entre ela e a ética, para dar lugar à sensualidade. De fato, a música era um complemento dos divertimentos particulares e públicos, nos banquetes e no circo. Ela era uma forma de atrair e concentrar a vasta população romana nos recintos públicos, assumindo assim um caráter de instrução geral.

Embora não haja vestígios autênticos da música da antiga Roma, sabemos, por relatos verbais, baixos-relevos, mosaicos, afrescos e esculturas, que ela desempenhava um papel importante na vida militar, no teatro, na religião e nos rituais.


[1] Quatro textos, escritos em sânscrito por volta de 1500 a.C., que formam a base do extenso sistema de escrituras sagradas do hinduísmo, que representam a mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia.

[2] Modos usados na música clássica indiana. Embora as notas sejam um elemento importante do rága, este não se resume a uma escala. Vários rágas podem compartilhar a mesma escala. Um rága pode ser visto como um conjunto de normas de como construir uma melodia. Há normas para subir e descer a escala, quais notas devem estar mais presentes e quais serão mais ornamentais, quais podem ser usadas na poesia gamaka, frases a serem usadas e outras a serem evitadas. É um sistema que pode ser usado para compor ou improvisar, permitindo variações infinitas dentro das notas estabelecidas. A escala usada em um rága pode ter de cinco a sete notas, chamadas na música clássica indiana de swaras.

[3] Centros de energia.

[4] Além de deus dos adivinhos, da cura, divina distância, doenças, juventude, luz, medicina, morte súbita, pastoreio, pragas, profecia, proteção, razão, Sol, tiro com arco e verdade.

[5] Inventado por Ctesíbio, no século II a.C., na Alexandria.