Um guerreiro age estrategicamente. O medo não prejudica ninguém. O que prejudica é ter sempre alguém dizendo o que fazer e o que não fazer.

Parte I – Parando o Mundo

1. REAFIRMAÇÕES DO MUNDO EM TORNO DE NÓS

As pessoas dificilmente percebem que nós podemos cortar qualquer coisa de nossas vidas, a qualquer hora e que não podemos fazer nada sem o espírito.

2. APAGANDO A HISTÓRIA PESSOAL

É preciso desejar abandonar a história pessoal e então agir harmoniosamente para cortá-la aos poucos. Perguntar sobre o passado não é bom. É melhor apagarmos nossa história pessoal porque isso nos torna livres do estorvo de pensarmos nos outros. Aos poucos criamos um nevoeiro em torno de nós, apagando tudo, até que nada seja admitido, certo ou real. Quando alguém não tem história pessoal, nada do que diz é tomado como mentira. Temos duas alternativas: ou tomamos tudo como certo e real ou não. No primeiro caso ficaremos aborrecidos conosco e com o mundo. Já se apagarmos a história pessoal, criaremos uma nuvem em torno de nós, um estado muito excitante e misterioso, em que ninguém sabe onde o coelho irá aparecer, a não ser nós mesmos. Quando nada é certo, ficamos perenemente alertas. É mais excitante não saber onde o coelho está escondido do que comportar-se como se soubesse tudo.

3. PERDENDO AUTO-INFLUÊNCIA (ou importância)

A auto-influência também deve ser abandonada. O mundo é muito misterioso. Ele não entrega seus segredos facilmente. Enquanto sentimos que somos a coisa mais importante do mundo, não podemos apreciá-lo realmente. Não importa o que se diz a uma planta. O que importa é o sentimento de gostar dela e o fato de tratá-la como igual. As plantas e nós estamos quites. Ninguém é mais ou menos importante. É preciso falar com elas em voz alta e clara se quisermos que elas respondam. Não é necessário falar com as plantas, a não ser que queiramos saber seus segredos e para isso é preciso ter a mais inabalável intenção. Se uma plantinha for generosa conosco, devemos agradecê-la, ou talvez ela não nos deixe ir embora.

4. A MORTE É UMA CONSELHEIRA

A morte é nossa eterna companheira. Está sempre à nossa esquerda, ao nosso alcance, observando-nos, até o dia em que nos tocará. Ninguém pode se sentir muito importante, tendo a morte à espreita. Quando nos sentimos impacientes, devemos virar à esquerda e pedir conselhos à morte. Muitas insignificâncias são abandonadas quando sentimos que a morte nos acompanha. Ela é a única conselheira que temos. A morte é a caçadora.

5. ASSUMINDO RESPONSABILIDADE

Quando alguém decide fazer algo, deve ir até o fim e se responsabilizar pelo que faz. Não importa o que faça, deve saber o que está fazendo e agir sem dúvidas ou remorso. Num mundo onde a morte é a caçadora, não há tempo para dúvidas e remorso. Só há tempo para decisões, não importando o tamanho delas. Todas elas são tomadas diante da morte.

6. TORNANDO-SE CAÇADOR

Se olhamos para um arbusto, árvore ou pedra onde podemos descansar, nossos olhos podem nos fazer sentir se é ou não o melhor lugar. O truque é sentir com os olhos. A técnica é separar as imagens e ver dois de tudo, focar a atenção na área entre as duas imagens. Alguma mudança digna de nota aparecerá nessa área. Ser um caçador significa que conhecemos um ótimo negócio, que podemos ver o mundo de diferentes formas. Para ser um caçador é preciso estar em perfeito equilíbrio com tudo, senão a caça se transforma numa rotina diária sem sentido. Por exemplo, hoje nós pegamos uma pequena cobra. Eu tive que me desculpar com ela por cortar sua vida tão de repente e definitivamente. Nós e as cobras somos iguais. Uma delas nos alimentou hoje. Caçadores devem ser indivíduos excepcionalmente severos. Um caçador deixa muito pouco acontecer. A caça é um dos maiores atos que alguém pode executar. Todos os caçadores são poderosos. Um caçador tem que ser poderoso para começar, em boas condições, a suportar o rigor de sua vida. Em algum momento todos souberam que os caçadores eram as melhores pessoas.

7. SENDO INACESSÍVEL

Um caçador precisa saber tudo para mover-se corretamente. O mundo é um lugar misterioso, especialmente no crepúsculo, que é um horário de poder. Nesse horário o vento se transforma em poder. O caçador usa o crepúsculo e o poder escondido no vento. Se for conveniente, ele se esconde desse poder até que o crepúsculo passe. Essa proteção é como um casulo. O segredo dos grandes caçadores reside em ser acessível ou inacessível na curva certa da estrada. Todos somos loucos. Ser inacessível significa que se toca o mundo sutilmente: comendo pouco, não usando e pressionando pessoas, principalmente as amadas. Ser inacessível significa, deliberadamente, evitar cansar-se e aos demais. Um caçador sabe que vai driblar as armadilhas e por isso não se preocupa. A preocupação torna-nos acessíveis. Preocupados, nos agarramos a qualquer coisa, em desespero. Agarrados, chegamos à exaustão. Um caçador se relaciona intimamente com seu mundo e assim torna-se inacessível a esse mesmo mundo.

8. ROMPENDO AS ROTINAS DA VIDA

Um caçador sabe as rotinas de sua presa, mas, ele mesmo, não tem rotinas. Ele não é como os animais. Ele é livre, fluido, imprevisível. A preocupação de um caçador é não ser uma presa, ele mesmo.

9. A ÚLTIMA BATALHA NA TERRA

Um caçador deve viver como tal para arrancar quase tudo de sua vida. Infelizmente mudanças são difíceis e acontecem muito devagar. Um bom caçador muda seus caminhos com a frequência necessária. Precisa saber que há poderes na Terra que guiam tudo o que está vivo. Guiam nossa vida e nossa morte. Nós precisamos nos responsabilizar por estarmos num mundo misterioso, admirável, estupendo, incomensurável, maravilhoso. Devemos aprender que cada ato conta, pois estamos aqui por pouco tempo, pouco para testemunhar toda essa maravilha. As mudanças necessárias acontecem de repente. As ações somente terão poder se forem tomadas como a última batalha na Terra. A continuidade só nos faz tímidos.

10. TORNANDO-SE ACESSÍVEL AO PODER

Não se deve carregar nada nas mãos ao caminhar. Um caçador não se preocupa com a manipulação do poder. Já um guerreiro busca o poder. A decisão entre ser um caçador ou um guerreiro está no domínio dos poderes que guiam as pessoas. Um caçador sabe que seus sonhos são reais. Os sonhos são mais reais que a “realidade” porque neles temos poder. O poder é algo com que um guerreiro se relaciona. No início é algo inacreditável, forçado, é difícil até pensar sobre ele. Depois transforma-se em questão séria. Finalmente é algo em nós que controla nossos atos e obedece nosso comando. O primeiro passo é levantar sonhando. Para isso, à noite, nos sonhos, deve-se olhar para as mãos. Todas as vezes que olhamos para algo nos sonhos, ele toma forma. Quando mudar de forma, olhamos para outra coisa.

11. O HUMOR DE UM GUERREIRO

Um guerreiro é um impecável caçador que caça poder. Quando tem sucesso, pode se tornar uma pessoa de saber. Os guerreiros se enterram para ter esclarecimento e poder. Não devemos nos lamentar. Isso não combina com a vida de um guerreiro. A coisa mais difícil do mundo é assumir o humor de um guerreiro. Não estar triste ou preocupado e sentir-se justificado. O humor de um guerreiro chama pelo autocontrole e, ao mesmo tempo, pelo auto-abandono. Podemos ultrapassar nossos limites se estivermos com o humor certo. Um guerreiro faz seu próprio humor. É conveniente sempre agir num certo humor. Precisamos do humor de um guerreiro para qualquer ato simples. Ele calcula tudo. Isso é controle, mas assim que calcula, age. Isso é abandono. Ninguém o empurra ou o faz agir contra si. Ele sobrevive da melhor forma possível. Um guerreiro pode ser prejudicado, mas não ofendido. Para um guerreiro não há nada ofensivo, desde que ele aja com o humor certo. O humor de um guerreiro não é afetado pelo mundo de ninguém. Alcançar o humor de um guerreiro não é simples, é uma revolução.

12. UMA BATALHA DE PODER

Não há planos quando se caça poder. Um caçador caça tudo o que se apresenta para ele. Ele precisa sempre estar em estado de alerta. O poder é uma questão peculiar. É impossível dizer o que realmente é. É um sentimento que se tem sobre certas coisas. É pessoal. O poder nos comanda e nos obedece. Um caçador de poder prende-o e guarda-o como um achado pessoal. Assim seu poder pessoal cresce e ele pode chegar a guerreiro, que tem tanto poder pessoal, que se transforma numa pessoa de saber. Um caçador de poder observa tudo e tudo conta a ele algum segredo. O poder é uma questão misteriosa. A morte está sempre esperando; por isso, aventurar-se no desconhecido é uma estupidez. O mundo é um mistério. Somos tão jovens quanto quisermos.

13. A ÚLTIMA POSIÇÃO DE UM GUERREIRO

Quando alguém está negociando com o poder, deve ser perfeito. Enganos são mortais. As pessoas escolhem um lugar de poder e lá elas morrerão, estejam onde estiverem. A morte permite ao guerreiro chamar pela última vez seu poder e que se alegre, porque ele tem espírito impecável.

14. O ANDAR DO PODER

Uma pessoa de saber sabe que a morte é a última testemunha porque ele vê. Não importa como alguém foi criado. O que determina o caminho para se fazer algo é o poder pessoal. As pessoas são o resultado de seu poder pessoal, que determina como viver e como morrer. O poder pessoal é um sentimento. Uma pessoa de saber é alguém que seguiu, verdadeiramente, os sofrimentos do aprendizado. Alguém que foi tão longe quanto pode, desvendando os segredos do poder pessoal. Caçar poder é um evento peculiar. Começa como uma idéia, manifesta-se passo a passo e então acontece. Caçar poder é uma estranha questão. Não há caminho a planejar e isso é excitante. Um guerreiro age como se ele tivesse um plano porque ele acredita em seu poder pessoal. Ele sabe que isso o fará agir do modo mais apropriado. O segredo da juventude não está no que se faz por si próprio, mas no que não se faz. O mundo é um mistério e não importa como o imaginamos. O caminho do saber e do poder é muito difícil e longo.

15. NÃO FAZER

Ou nos fazemos miseráveis ou nos fazemos fortes. A quantidade de trabalho é a mesma. Não fazer é muito difícil e poderoso. Não fazer é só para guerreiros muito fortes. Há infinitas linhas que nos unem às coisas. As linhas mais duráveis que uma pessoa de saber produz vêm do meio do corpo. A parte mais difícil do caminho do guerreiro é compreender que o mundo é um sentimento. Quando alguém está não fazendo, está sentindo o mundo e o sente através de suas linhas. Ver é a realização final de uma pessoa de saber e é atingido somente quando paramos o mundo através da técnica de não fazer. Durante o dia as sombras são as portas do não fazer, mas à noite tudo são sombras, inclusive os aliados. A única coisa real é que morreremos.

16. O ANEL DO PODER

Quando nascemos, trazemos conosco um anel de poder, que quase imediatamente é posto em uso. Todos estamos presos ao nascimento e nossos anéis estão unidos para o fazer do mundo. Uma pessoa de saber desenvolve outro anel de poder, o anel de não fazer e com ele, pode girar outro mundo. Não fazer é milagroso e poderoso.

17. UM VALIOSO ADVERSÁRIO

Se nunca podemos ser enganados, nunca podemos aprender. Quando um guerreiro encontra seu adversário que não é um simples ser humano, ele deve parar. Só assim se manterá invulnerável. Um guerreiro leva sua vida estrategicamente. Só vai a festas se sua estratégia recomendar, para poder ter todo o controle necessário.

Parte II – Viagem para Ixtlan

18. O ANEL DE PODER DO FEITICEIRO

Todos nós, sendo ou não guerreiros, temos um centímetro cúbico de chance que aparece para nós de vez em quando. A diferença entre uma pessoa comum e um guerreiro é que o guerreiro é consciente disso e uma de suas tarefas é estar alerta, deliberadamente esperando, de forma que quando seu centímetro cúbico aparece, ele tem a necessária rapidez e habilidade para pegá-lo. Chance, boa sorte e poder pessoal são um estado peculiar das questões. É como um pequeno graveto que chega perto de nós e nos convida para apanhá-lo. Normalmente estamos ocupados, preocupados ou com preguiça para perceber nosso centímetro cúbico de sorte. Já um guerreiro está sempre alerta, amarra e tem a corda necessária para apoderar-se dele.

19. PARANDO O MUNDO

Ver acontece somente quando nos movemos entre o mundo comum e o dos feiticeiros, pois ambos são reais. Para ver é preciso aprender a forma como os feiticeiros olham para o mundo e então o aliado é chamado e vem.

20. VIAGEM PARA IXTLAN

Se seu pescoço ficar duro, é sinal de que você está pronto para encontrar o aliado. O solavanco que se sente quando arrebatamos um aliado é tão forte, que pode-se morder a língua ou bater os dentes. O corpo deve estar ereto e bem apoiado, com os pés agarrando o chão, para sustentar o impacto e então deve-se pular e agarrar o aliado. Depois de encontrar o aliado, nada mais é real. Não há resultado final em nossa jornada. Nossos sentimentos não morrem nem mudam e um feiticeiro começa seu caminho de volta para casa sabendo que nunca vai alcançá-lo, sabendo que nenhum poder na Terra, nem sua morte vai libertá-lo do lugar, das coisas e das pessoas que amou. Para ser um feiticeiro é preciso ter paixão. Uma pessoa apaixonada tem bens materiais e as coisas custam para ela – se não tiver nada mais, basta a trilha por onde anda. Somente como feiticeiro pode-se sobreviver no caminho do saber, porque a arte do feiticeiro é equilibrar o terror e a maravilha de ser alguém. Nada é ganho forçando o resultado. Para sobreviver é preciso ser cristalino e extremamente seguro de si mesmo.