Na 6ª feira, 21 de agosto, acordei leve, em estado alfa. Também, pudera! Na véspera, o ato pró Democracia, em defesa do governo Dilma e contra o Golpe foi um grande sucesso! Um sucesso 100% pacífico. Tão pacífico que em Sampa, os inúmeros PMs estrategicamente localizados ao longo das avenidas Rebouças e Paulista (não os vi no Largo da Batata) estiveram por ali a passeio: não precisaram trabalhar. Não sei – e não fazem falta – onde se meteram os black blocs de 2013, que tantos estragos causaram tanto ao patrimônio público quanto ao privado, além de, autoritariamente, tentarem melar manifestações que se pretendiam pacíficas.

 Verdade seja dita: agora houve também críticas ao ajuste fiscal e a Joaquim Levi, particularmente no que prejudica diretamente os trabalhadores. Espero que o peso das manifestações de 20 de agosto sensibilize nossa presidenta para que volte atrás nas medidas que afetam negativamente os trabalhadores, que sempre pagaram pelas crises no passado (chega!). Sabemos que a crise é internacional e demorou muito mais para chegar ao Brasil do que à maioria dos demais países. Mas chegou. Como bem dizia um grande cartaz: “que os ricos paguem a crise!” E que Dilma lembre quem foi que a elegeu duas vezes, se quiser fazer o sucessor!!

 Cheguei em torno das 17h ao Largo da Batata com uma amiga e logo ganhei um apito (bom pra poupar as cordas vocais). Já havia um número razoável de pessoas, a ponto de encontrarmos muito poucos conhecidos, embora como nós, certamente muitos e muitos estivessem lá. Logo fomos presenteadas com bonés e abadás da CUT, vermelhos, lindos e úteis, pois a aba do boné protegeu da chuva. Além disso, mais tarde, ganhei também uma ótima capa de chuva do pessoal da CTB [1].

 A 1ª diferença a ser notada em relação ao que aconteceu no domingo 16/08 foi justamente o que caracteriza e diferencia os participantes: no nosso ato predominaram pessoas simples, trabalhadoras, politicamente organizadas, éticas, democráticas, justas, política e socialmente conscientes, mestiças (sim: os atos deles não parecem de brasileiros, não tem negros, mestiços [2]… e isso chama a atenção até da imprensa internacional).

 Além disso, a apelação de seus atos fez o tiro sair pela culatra e os nossos companheiros foram para a rua com sua garra habitual reforçada. Afinal, quem sabe o que é conquistar a democracia com sangue, suor e lágrimas depois de uma ditadura militar não tem como engolir cartazes dizendo que Dilma deveria ter sido enforcada, que todos deveriam ter sido mortos em 1964, que os militares deveriam voltar… e até a monarquia (disseram, sim!)

 É verdade que há muita ignorância e falta de estudo/conhecimento em tudo isso, mas há também uma dose imensa de reacionarismo, preconceito, medo de perder “privilégios” (muitos conquistados na era Lula/Dilma…) Tudo isso pra não falar dos stripteases, das selfies com policiais, das poses postadas no Face como se estivessem num passeio turístico (estavam?)

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 Voltando a ontem: havia inúmeros balões da CUT, da CTB, da UNE, de sindicatos, associações, partidos políticos e das mais diversas organizações de trabalhadores, de bairros e estudantis. Isso deu um colorido e uma beleza especiais. Afinal, o ato foi convocado por mais de 50 dessas organizações!

 Não vou discutir números, só sei que tinha muita gente! Ora, se a PM de SP falou em 40 mil, evidentemente é porque tinha muito mais! Há tempos estamos acostumados com sua aritmética peculiar: se o ato é nosso, diminuem o número de participantes; se é deles, aumentam [3]. Simples assim. O que importa é que todos viram a massa de manifestantes. Repito: manifestantes, não pessoas perdidas em passeio dominical. Puxavam-se várias palavras de ordem mas, graças aos pretensos “novos” golpistas, o que mais se ouviu foi: “Não vai ter golpe!” No ritmo, claro – afinal, somos brasileiros.

 Havia também, como não poderia deixar de ser neste país alegre e comunicativo, alguns grupos de baterias de samba, muito animados, improvisando letras próprias para a ocasião. Tudo muito bem humorado. Cantamos a valer (e autorizados) “Vou festejar” de Beth Carvalho, indevidamente usada pelos outros no dia 16, o que a fez prometer que exigirá retratação jurídica e fazer as seguintes declarações: “minha voz e meu samba não os representa nem hoje, nem ontem, nem nunca. Sempre me posicionei ao lado de líderes como Che Guevara, Fidel Castro, Hugo Chavez, Leonel Brizola, João Pedro Stédile. Inclusive, a música ‘Vou Festejar’, gravada primeiramente em 1978, sempre representou movimentos de esquerda e de abertura política como as Diretas Já e o 2º turno de Lula contra o Collor em 1989. Seu uso é uma evidência clara da total despolitização ou intenção de despolitizar do movimento Vem Pra Rua”.

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 Confesso que já fui a inúmeros comícios e manifestações, o que me autoriza a, atualmente, ter paciência tendente a zero para prestar atenção em discursos. Enfim: depois de uns tantos deles saímos em passeata até a av. Rebouças (que teve um lado fechado para permitir nossa passagem) e dali subimos até a av. Paulista/MASP (5,3 km). M-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o! Há quanto tempo não participava de algo tão emocionante, necessário, merecido, aglutinador!! Lembrei (quem foi?) de um evento na campanha de Lula em 1989, em que fizemos um comício na praça da Sé e de lá seguimos pela av. Brig. Luis Antonio até o MASP na av. Paulista (2,9 km). I-n-e-s-q-u-e-c-í-v-e-l!!!

 No meio do caminho minha amiga quis ir ao toalette e a acompanhei. Só que na saída nos perdemos. Segui sozinha, mas tive que apressar o passo, pois havia me distanciado um pouco da passeata. Logo a alcancei, mas resolvi continuar a passos rápidos e acabei tropeçando e caindo já quase chegando à Paulista. Nada grave: só fiquei com duas manchas roxas, doce lembrança de uma atividade que me lavou a alma, como há muito não acontecia.

 Ao chegar à av. Paulista aproveitei para sacar no BB e… pasmem: enquanto eu saía da agência, entrava um senhor que, vindo da rua, evidentemente havia visto o TAMANHO da manifestação! Não satisfeito, me encarou, talvez estranhando minha presença em “seubanco, e fez sinal de negativo com o polegar. Pode?!? Coxinha não se manca, mesmo! Ignorei, evidentemente, e voltei pra minha turma. Comi uma esfiha e brindei com outros três simpáticos manifestantes.

 Depois fui até o MASP, vi o encerramento do ato e segui pra casa de metrô. A entrada ali também foi quente: chegamos todos mais uma vez entoando “não vai ter golpe”! Cheguei em casa pouco após as 22h, FELIZ (!) pela profunda, imensa e abrangente sensação de dever cumprido! Vi algumas lindas imagens pela TV e fui dormir o sono dos justos.

[1] Central de Trabalhadores do Brasil.

 [2] Coxinhas são clarinhas! :)

[3] Basta lembrar que no 15/03 a PM teve a desfaçatez de dizer que havia um milhão de pessoas na av. Paulista, onde sequer caberiam tantas, caso estivesse toda lotada, o que não aconteceu. Só mesmo se a referência fosse a um milho grande… (Houve desmentido até da Folha de SP, além de outros especialistas nesse tipo de contagem).